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Segundo Matias Aires (1752), apenas a vaidade é capaz de tornar a dor em prazer, de confundir por meio da aclamação e do aplauso, de converter a dor do golpe em gozo. A vaidade atrai a si toda a sensibilidade e deixa a natureza absorta e indolente: “assim se vê que a vaidade nos livra de uma dor como por encanto; por isso nos é útil, pois serve de acalmar os nossos males; e se os agrava alguma vez, é como a mão do artista, que faz doer para curar”.

Tenho percebido o quanto é dúbia a relação da vaidade com a dor. Homens e mulheres, mais do nunca, condicionam sua felicidade e realização pessoal aos ideais ditados pela vaidade, principalmente a de querer vencer. Entretanto, pacientes com dor crônica têm uma enorme dificuldade em sair do seu ambiente de costume (“zona de conforto”), as mulheres abandonam o salto alto, as roupas feitas de tecidos que apertam e toda sorte de acessórios, especialmente os pesados. Os homens deixam de fazer a barba, perdem os amigos e entram em um ciclo vicioso de repouso – piora da dor – repouso. E assim a vida social vai escoando pelas mãos.

Sabe-se que reprimir as paixões pode ter o efeito contrário daquele esperado porque, em função da vaidade, elas fortificam-se na resistência, encontram mais motivação no combate. Já dizia Jung: “o que você resiste, persiste.”

Foto: Jéssica Walsh

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