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A dor é definida como experiência emocional desagradável relacionada a um dano tecidual real ou potencial, sendo dividida nos tipos nociceptiva e neuropática.

A dor nociceptiva ocorre por ativação fisiológica de receptores sensoriais ou da via dolorosa e está relacionada à lesão de tecidos ósseos, musculares ou ligamentares. Já a dor neuropática é definida como dor iniciada por lesão ou disfunção do sistema nervoso, sendo melhor compreendida como resultado da ativação anormal e desregulada da via nociceptiva (fibras de pequeno calibre e trato espinotalâmico).

A dor neuropática é um tipo de sensação dolorosa que ocorre em uma ou mais partes do corpo e é associada a doenças que afetam o Sistema Nervoso, ou seja, os nervos periféricos, a medula espinhal ou o cérebro. Essa dor pode ser consequência, também, de algumas doenças degenerativas que levam à compressão ou a lesões das raízes dos nervos ao nível da coluna.

Nos últimos anos, a dor neuropática vem recebendo especial atenção por dois motivos principais: 1) refratariedade terapêutica de várias síndromes dolorosas com componentes neuropáticos predominantes e 2) desenvolvimento de ferramentas diagnósticas para o reconhecimento deste tipo de dor.

Atualmente, o mecanismo mais plausível e cientificamente aceito para explicar a dor neuropática é a geração ectópica de impulsos nervosos às fibras de pequeno calibre do tipo C e Aδ. Após a lesão do nervo, alguns pacientes desenvolvem alteração na distribuição e conformação de canais iônicos (especialmente canais de sódio) que promovem aumento da excitabilidade axonal das fibras finas nociceptivas. Tal excitabilidade é, muitas vezes, gerada longe do foco da lesão inicial (por isso chamadas de descargas ectópicas), mas capaz de acarretar o surgimento de sintomas de características neuropáticas. Não é por acaso que um dos tratamentos mais eficazes para a dor neuropática é o uso dos anticonvulsivantes que agem sobre os canais de sódio, tais como a Carbamazepina e Gabapentina. Para alguns estudiosos, inclusive, a dor neuropática poderia ser considerada como uma “epilepsia do nervo ou da via nociceptiva”.

A IASP (Associação Internacional para o Estudo da Dor) escolheu o ano de 2015 como o Ano Mundial contra a Dor Neuropática, com o objetivo de desenvolver uma maior consciência sobre esta condição e contribuir para o seu tratamento mundo todo. A campanha inclui atividades educativas para profissionais de saúde, líderes governamentais e o público em geral.

Características da dor neuropática 

A dor neuropática se manifesta de várias formas, como sensação de queimação, peso, agulhadas, ferroadas, choques. Pode ser acompanhada ou não de “formigamento” ou “adormecimento” (sensações chamadas de parestesias) de uma determinada parte do corpo. 

Como no sistema nervoso existem fibras “finas” e fibras “grossas”, as características das dores podem identificar qual o tipo de fibra que está acometida. Nas lesões de fibras finas geralmente predominam as dores em queimação, aperto e peso. Nas lesões de fibras grossas são mais comuns as dores em pontadas, agulhadas e choques. Existe, ainda, situações em que existem ambos os tipos de dores, isto é, dores de fibras finas e grossas ao mesmo tempo, sendo chamadas de dores mistas. 

Quando somente um trajeto nervoso está comprometido pela doença, por isso chamado de mononeuropatia, a dor é bem localizada, podendo afetar um lado do corpo ou da região (por exemplo, um lado da perna, do tórax, da face, etc.). Às vezes, mais de um nervo pode estar envolvido no processo, causando dores em mais de um segmento do corpo (mononeuropatia múltipla). 

Quando vários nervos estão alterados ou danificados, ou seja, nas polineuropatias, a dor aparece de forma difusa, generalizada, podendo provocar dor no tronco, nos braços e pernas ao mesmo tempo. 

A dor pode ser contínua (estar presente durante todo o tempo) ou intermitente (em crises, surgindo em horários intercalados). A intensidade da dor varia de fraca a intolerável, dependendo do estágio da doença e do grau de comprometimento dos nervos.

Estudos apontam que sete em cada cem pessoas têm dor com características neuropáticas. A dor neuropática é um tipo de dor que costuma ter um grande impacto na vida de quem sofre com elas. Em comparação com outros tipos de dor, costuma ser mais intensa e estar associada a incapacidade, e uma considerável diminuição na qualidade de vida.

Fatores desencadeantes

Doenças infecciosas – causadas por bactérias ou vírus que podem afetar os nervos pela liberação de toxinas ou pela degeneração provocada pela presença do microrganismo. Podem determinar dores agudas ou dores que persistem após a resolução do processo infeccioso, como, por exemplo, a neuralgia pós-herpética causada pelo vírus Herpes varicela zoster, vulgarmente conhecido como “cobreiro”. 

Traumas – em trajetos nervosos por acidentes, fraturas ou cirurgias que levam a dores agudas de grande intensidade no período de convalescença ou no pós-operatório, as quais podem se tornar crônicas, caso não sejam tratadas adequadamente. 

Diabetes mellitus – na fase degenerativa, pode lesar a capa que reveste os nervos (chamada de “bainha de mielina”), provocando a neuropatia diabética. 

Acidentes – que afetem a coluna, determinando trauma raquimedular, ou o crânio, determinando traumatismo crânio encefálico, podendo causar dor intensa e persistente. 

Alcoolismo, deficiência nutritiva e de certas vitaminas – afetam a função nervosa de forma significativa desencadeando um quadro de dor.

Exemplos de doenças ou lesões que provocam dores neuropáticas: 

Neuralgia do trigêmio. 

Neuralgia traumática (após acidentes). 

Neuralgia incisional (de cicatrizes). 



Síndrome de dor complexa regional.

Herpes Zoster.

Radiculalgia pós-laminectomia (por cicatriz após cirurgia de hérnia de disco). 

Neurite ou polineurite diabética. 

Plexalgia ou plexite após radioterapia. 



Tumores comprimindo nervos. 



Síndrome talâmica (após derrames cerebrais em áreas específicas). 



Disestesia do paraplégico (após lesões completas ou incompletas da medula espinhal).

Tratamento

A dor neuropática costuma responder pobremente aos analgésicos comuns, sendo os fármacos antidepressivos tricíclicos e anticonvulsivantes os principais representantes no tratamento deste tipo de dor, seja de origem periférica ou central.

O tratamento da dor neuropática varia de acordo com a doença e o estágio em que ela se encontra. O objetivo é tratar especificamente do nervo, ou a doença que está lesando o nervo indiretamente e/ou a dor oriunda dessas lesões ou visar somente o alívio da dor. Os medicamentos comumente usados são: 

Anticonvulsivantes – substâncias usadas para tratar epilepsia (gabapentina, carbamazepina, lamotrigina, pregabalina) que atuam diminuindo a atividade elétrica dos nervos ou inibindo a passagem das dores por determinadas vias nervosas. 

Anestésicos – como a cetamina e ropivacaína, que também diminuem a atividade elétrica dos nervos. 

Antidepressivos – como a amitriptilina e duloxetina, que estimulam certas partes do sistema nervoso que vão inibir a passagem das dores, além de atuar na depressão que geralmente acompanha a neuropatia ou qualquer dor na fase crônica. 

Os anticonvulsivantes e os antidepressivos são administrados por via oral e os anestésicos, pelas vias oral, intravenosa e peridural (na medula espinhal). No caso das medicações usadas pela via oral, os resultados de melhora começam a ser sentidos após duas ou três semanas de tratamento e depois de reajustes progressivos nas dosagens. Esses medicamentos costumam, no início, provocar sonolência, tonturas, sensação de cabeça vazia e boca seca, as quais cedem dentro de cinco a sete dias. A persistência com o tratamento é muito importante para se obter bons resultados. Exercícios físicos orientados e psicoterapia podem ser importantes recursos auxiliares no tratamento dessas condições.

Outras modalidades de tratamento, tais como a estimulação sensitiva (TENS, estimulação medular, cerebral profunda) e neurocirúrgicos (simpatectomia, cordotomia, neurólise radicular) costumam ser oferecidos em alguns centros para pacientes refratários ao tratamento medicamentoso, mas não existe evidência científica suficientemente robusta para uma recomendação sistemática. Mais recentemente, tem sido proposto o uso de estimulação magnética transcraniana no tratamento de alguns tipos de dor neuropática, visando a modulação dos sintomas dolorosos através da reorganização cortical induzida por esta técnica. No entanto, não existem até o momento conclusões definitivas sobre o papel da estimulação magnética na dor neuropática que permitam seu uso disseminado na prática clínica diária.

O tratamento objetiva a cura da doença e, quando não for possível, o alívio do sofrimento do paciente. Vale lembrar que o controle adequado da dor favorece o paciente em vários aspectos: melhora as atividades diárias, proporciona sono tranquilo e reparador, aumenta a capacidade para o trabalho, estimula a libido e atividades de lazer, com melhora da autoestima. Enfim, melhora a qualidade de vida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Sergio Lianza, Medicina de Reabilitação, 4ª edição, 2015.

Rioko Kimiko Sakata, Adriana Machado Issy, Dor, Unifesp, 2ª edição, 2008.

Jaime H. Von Roenn, Judith A. Paice, Michael E. Preodor, Current Diagnóstico e Tratamento Dor, 2008.

Joel Delisa, Tratado de Medicina de Reabilitação, 3ª edição, Volume 2, 2002.

Dor neuropática, Schestatsky P, Rev HCPA 2008;28(3):177-87

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