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DOR

O que é?

A dor, fenômeno inerente ao ser vivo, é considerada um mecanismo de defesa e alerta. De defesa quando identifica um estímulo agressor que pode ferir a sua integridade e de alerta no sentido de fazer com que os seres vivos procurem mecanismos de retorno à normalidade.

É definida pela Associação Internacional de Estudos da Dor (IASP) como “experiência emocional e sensorial subjetiva desagradável associada à real ou potencial lesão tecidual…” em 1994.

Todos os seres vivos têm experiência de fenômenos dolorosos desde as fases mais primitivas do seu desenvolvimento. Dor é um sintoma físico desconfortável, ou seja, um corte na perna causa desconforto do tipo queimação, pontada, latejante, etc., e também um desagrado emocional. A ansiedade é mais comum na dor aguda ela se origina do temor associado a essa lesão. Será que a lesão é grave? Será que essa dor não vai parar ou piorar? Será que eu vou conseguir andar? Será que a lesão vai infectar?

Quando um tecido é traumatizado ocorre liberação local de substâncias químicas, imediatamente detectadas pelas terminações nervosas. Estas disparam um impulso elétrico que corre até a parte posterior da medula espinal. Nessa região, um grupo especial de neurônios se encarrega de transmiti-lo para o córtex cerebral, área responsável pela cognição. Aí o impulso será percebido, localizado e interpretado. Para se ter uma ideia da velocidade de transmissão do impulso elétrico, é só pensar no tempo decorrido entre encostarmos a mão num objeto quente e nos afastarmos dele. Esse circuito complexo de fibras nervosas que conduzem o sinal, está associado à liberação de mediadores químicos, responsáveis pela sintonia fina do mecanismo da dor. De um lado, o organismo precisa da dor para defender-se, mas o processo não pode ser perpetuado.

Com a finalidade de impedir que a dor persista mais tempo do que o necessário, os sinais que chegam ao cérebro e se tornam conscientes vão estimular a liberação de substâncias chamadas endorfinas e encefalinas, que inibem a propagação do impulso elétrico.

O mecanismo de inibição da dor é tão importante para a sobrevivência do organismo quanto o circuito responsável pela percepção dela. Se não fosse pelo mecanismo de inibição, a dor de um pequeno corte persistiria enquanto durasse o processo de cicatrização.

Continuando na descrição científica que diz que a dor pode ser “associada à real ou potencial lesão tecidual”, vale lembrar que a dor pode ocorrer até na ausência de “lesão real”, que é o que ocorre na dor crônica.

DOR CRÔNICA

O que é?

A dor crônica é aquela que dura mais de 3 meses, persistindo além do tempo razoável para a cura de uma lesão. Esse período tem sido controverso pois algumas entidades já consideram como dor crônica aquela cuja duração excede 30 dias. Pode também ocorrer associada a doenças crônicas, por exemplo ao diabetes, ao câncer e outras. Uma vez instalada não tem função de alerta e é de difícil tratamento.

Diferente do que muitos pensam, a dor crônica não é a continuação da dor aguda. Deixa de ser um sintoma e passa a ser uma entidade nosológica descrita na Classificação Internacional de Doenças (CID) – R52.1 – Dor crônica intratável e R52.2 – Outra dor crônica.

 

 

Quando os sinais de dor são gerados repetidamente, os circuitos neurológicos sofrem alterações eletroquímicas que os tornam hipersensíveis aos estímulos e mais resistentes aos mecanismos inibitórios da dor. Disso resulta uma espécie de “memória dolorosa” guardada na medula espinal.

Para entendermos o que é de fato a dor crônica, vamos recorrer a uma analogia. Ao avisar-nos de que há algo errado acontecendo, a dor funciona como um alarme, assim como o de uma casa. Se um estranho tenta entrar na casa, o alarme soará, nos avisando que há um risco de assalto. Agora imagine que o alarme de uma casa passou a disparar aleatoriamente, mesmo que não haja ninguém por perto. O alarme perdeu a sua função, já não mais nos avisa dos riscos e perigos. Assim acontece com a dor crônica: a condição dolorosa passa a ser o problema em si, não é mais um aviso de uma enfermidade.

As mudanças no cérebro de quem sofre dor crônica têm sido motivo de inúmeras pesquisas. Com os estudos de neuroimagem, foi possível mostrar mudanças morfológicas em algumas áreas do córtex cerebral. Revisões científicas amplas também mostram a extensão do problema: mudanças físicas, funcionais e genéticas no cérebro de quem sofre dor persistente.

Cerca de um terço da população apresentará algum tipo de dor crônica durante a vida. À medida que vivemos mais, cresce o número de pessoas com dores na coluna, articulações, doenças reumáticas, câncer, degenerações ou inflamações nos órgãos internos e outros problemas que podem provocar dores crônicas.

A dor crônica é uma condição que afeta cerca de 60 milhões de brasileiros. Cerca de 50% dessas pessoas apresentam sério comprometimento em sua rotina.  Dados norte-americanos mostram que 31% da população têm dor crônica, acarretando incapacidade total ou parcial em 75% dos casos.

A dor crônica é muito difícil de ser curada. Trata-se de um problema complexo, que exige um trabalho interdisciplinar, envolvendo profissionais de diferentes especialidades. Em muitos casos, o objetivo não será acabar com a dor por completo, mas promover um alívio o mais sustentável e duradouro possível e ajudar a pessoa a ter uma qualidade de vida melhor. Para isso, vários recursos podem ser empregados. Medicamentos e procedimentos intervencionistas realizadas pelo médico fisiatra podem oferecer o alívio significativo da dor. O trabalho psicológico e, em alguns casos, psiquiátrico, é importante, pois a dor crônica geralmente acarreta alterações emocionais, podendo levar a condições como a ansiedade e depressão.

De fato, se todos entendessem a real importância do tratamento adequado da dor aguda, não teríamos índices tão crescentes do problema.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Sergio Lianza, Medicina de Reabilitação, 4ª edição, 2015.

Rioko Kimiko Sakata, Adriana Machado Issy, Dor, Unifesp, 2ª edição, 2008.

Manoel Jacobsen Teixeira et al, Dor, Síndrome Dolorosa Miofascial e Dor musculoesquelética, 2006.

Jaime H. Von Roenn, Judith A. Paice, Michael E. Preodor, Current Diagnóstico e Tratamento Dor, 2008.

Joel Delisa, Tratado de Medicina de Reabilitação, 3ª edição, Volume 2, 2002.

 

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